Modificabilidade Humana e
Aprendizagem Mediada
Reuven Feuerstein
Aumentar Fonte a a+ a+

Artigos

Deixe-me Pensar
Método de construção da inteligência é usado com excelentes resultados por escolas brasileiras

Matéria publicada na Revista ISTO É 03/06 1998 Rita Moraes

Você precisa prestar mais atenção às aulas! O conselho, quase automático, de professores e de pais serve tanto para um boletim repleto de notas baixas quanto para um pequeno erro na lição de casa de uma criança. O problema, no entanto, pode estar na comunicação. A começar pelo tom acusatório. Prestar atenção é observar atentamente. Mas será que essa criança foi ensinada a observar? Está motivada para isso? A responsabilidade pelo mau desempenho poderia ao menos ser dividida. Isso evitaria o que o psicólogo e educador romeno Reuven Feuerstein chama de "dedo em riste", ou seja, a visão de que a falha está na criança. Especialista em desenvolvimento infantil e criador da teoria da Experiência da Aprendizagem Mediada, Feuerstein vem há 40 anos ensinando as pessoas a ser inteligentes. Para ele, não existe limitação da inteligência nem de aprendizagem e a idéia de que a falha está na criança só contribui para a destruição de sua auto-estima e, mais terrível, pode determinar uma história de fracassos consecutivos e o desgosto pelos estudos. A teoria de "construção da inteligência", muito difundida e usada em escolas de outros países, ainda engatinha no Brasil. Mas as experiências aqui, ainda que isoladas, apontam para o sucesso. A partir do final do mês pais e educadores pioneiros nessa área poderão contar com uma boa ajuda na sua missão. Será lançado o livro Aprendizagem mediada dentro e fora da sala de aula, editado pelo Instituto Pieron de Psicologia Aplicada e pelo Senac. O assunto será também um dos principais temas do 7º Congresso de Educação para o Desenvolvimento.

Em São Paulo, o tradicional Colégio Arquidiocesano estuda a possibilidade de incluir no currículo o Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI). É o método aplicado por Feuerstein no Centro Internacional de Desenvolvimento de Aprendizagem, em Israel. Com ele, o educador romeno conseguiu elevar o nível de inteligência de crianças sobreviventes do holocausto. O método é centrado na figura do mediador, isto é, aquele que fornece informações extras (de tempo, de espaço e de valores) a um dado da realidade imediata, enriquecendo-o de novos significados. Esse mediador pode – e deve – ser o pai ou o professor. O princípio de Feuerstein é o de que qualquer pessoa pode aprender qualquer coisa, contrariando até mesmo o determinismo genético. Tudo depende da interação entre o educador, o aprendiz e o objeto de estudo. No Arquidiocesano, por enquanto, pais e professores observam o progresso de um grupo de oito alunos de nove a 14 anos que estão no projeto-piloto. "Além da melhora da auto-estima, as crianças se tornam mais atentas, menos impulsivas e ansiosas", diz o professor José Luís Dezordi, coordenador do curso. A aluna da oitava série Larissa Paina, 14 anos, diz que vivia no mundo da lua. Ela representou o seu progresso depois de um ano de curso com o desenho de uma centopéia. "Ela tem os pés no chão. Nas divisões do seu corpo estão as minhas conquistas", diz Larissa. O lema de Feuerstein, "um minuto, deixe-me pensar", utilizado para controlar a ansiedade e a impulsividade também ajudou Talita da Silva, 13 anos. Ela ilustrou o seu progresso com uma árvore. "Eu sou o tronco forte e os frutos são o resultado do meu empenho", avalia.

Outro colégio paulistano preocupado em ensinar seus alunos a pensar é o Miguel de Cervantes, onde há um ano e meio o PEI é uma opção extracurricular. "Oferecemos o curso como forma de desenvolvimento de qualquer aluno", afirma a diretora Amélia Salazar. Carolina Maciel, 13 anos, que está na sétima série, diz que, apesar de seus esforços, não conseguia um bom desempenho na escola. Com o curso, voltou a se animar. "Aprendi a estudar e a me organizar. Até a bagunça no meu quarto melhorou. Também me expresso melhor", conta. Mas a tão esperada nota boa não vem rapidamente, avisa o coordenador do curso no Arquidiocesano. E este talvez seja outro desafio, tão grande quanto desenvolver inteligências. Os professores têm de ensinar os alunos a pensar e a gostar de aprender em vez de valorizar o sucesso em provas e testes. Mesmo porque o segundo seria a consequência lógica do primeiro. "O professor está acostumado a uma forma autoritária de lidar com a criança e preocupado em cumprir o programa", explica Dezordi. O PEI leva os professores de volta aos bancos escolares para se tornarem mediadores.

O desafio torna-se ainda maior quando se trata de crianças com necessidades especiais. Na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Paulo (Apae), há muito entusiasmo pela teoria. "Começamos há dois anos com um grupo de seis e hoje temos 26 crianças no programa", diz Leda de Oliveira, coordenadora do PEI no Centro de Habilitação. Mariana Cerbelheira, 14 anos, e Ana Paula Martins, 13, são algumas das beneficiadas. Portadoras da síndrome de Down, elas melhoraram o raciocínio abstrato, ganharam autonomia e agilidade. "Já não preciso da mamãe para fazer a lição de casa", conta, orgulhosa, Ana Paula. "Mariana amadureceu. Chega a acalmar a irmã de 16 anos quando ela está muito agitada", diz a mãe, Leonice Cerbelheira.

A importância da participação da família no desenvolvimento da criança é indiscutível, mas, segundo Feuerstein, neste século os pais deixaram de lado a educação dos filhos, esperando que tudo venha da escola. Sem a transmissão de valores, a criança tem dificuldade em processar mentalmente estímulos, de relacionar fatos e estabelecer a importância entre eles. Deixa, portanto, de aprender com os erros do passado. O processo de mediação pode estar presente em qualquer situação do dia-a-dia. Numa viagem de férias, uma mãe estará mediando o aprendizado de seu filho ao juntar ao lazer algumas histórias sobre o local, ao chamar a atenção para a arquitetura ou o comportamento das pessoas. "Os pais têm o direito e o dever de transmitir ensinamentos", diz Feuerstein.
Na teoria, há três tipos básicos de interação para se obter uma mediação: intencionalidade e reciprocidade, significado e, por fim, transcendência. No primeiro, o mediador isola e interpreta um estímulo chamando a atenção do aprendiz. No segundo, imprime valor e energia ao objeto de estudo e dá elementos para a compreensão. Já na transcendência, faz uma ponte entre uma atividade imediata e outras afins, promovendo a aquisição de princípios. O PEI também é utilizado por grandes empresas. Francisco Leitão Isaías, operário de uma subsidiária da Shell, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, fez o curso no trabalho. "Passei a me conhecer melhor, aprendi a colocar os problemas de forma simples e organizada", afirma o operário. O curso foi oferecido pelo Núcleo de Desenvolvimento do Potencial Cognitivo, dirigido pela psicóloga Andréia Goldani. "Nas empresas, trabalhamos a motivação. O aparato mental a pessoa já tem, ela precisa apenas se dar conta dele para funcionar melhor", diz Andréia, que atende também crianças e adolescentes. "É uma questão de exercitar."

É desenvolvendo formas de interação e exercícios que se pode construir a inteligência. A fórmula de Feuerstein parece muito simples à primeira vista, mas, centrada no processo de mediação, ela requer uma mudança completa de filosofia do ensinar e aprender. "Sem a aprendizagem mediada é difícil enfrentar uma sociedade em constante mudança", afirma a psicopedagoga Edith Rubinstein, que possui em São Paulo um centro de treinamento autorizado, como o Instituto Pieron, a transformar educadores em mediadores. Num país onde apenas 40 de 100 crianças terminam o primeiro grau e numa era onde o saber se transforma a cada minuto, aprender a aprender parece mais que fundamental. Como diria Feuerstein, mais importante que conhecer é saber o que fazer com o conhecimento e estar pronto para aprender todos os dias.
Colaborou Valéria Propato, do Rio de Janeiro