Modificabilidade Humana e
Aprendizagem Mediada
Reuven Feuerstein
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Artigos

Qualificando o processo educativo
Sandra Pereira de Arruda*


Introdução

Com os dados obtidos na Avaliação Institucional realizada em 1999 em todas as Escolas Maristas da Sociedade Meridional de Educação (SOME), constatou-se a urgência em buscar alternativas para redimensionar o processo educativo desenvolvido principalmente nas séries finais do ensino fundamental e no ensino médio.


Era preciso definir no projeto educativo das escolas uma linha de ação metodológica clara. Optou-se por integrar os pilares da “teoria da experiência da aprendizagem mediada – Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI)” e do Programa de Educação para o Pensar, oferecendo suporte de acompanhamento pedagógico aos professores. A qualificação do trabalho do professor em todos os componentes curriculares e o seu comprometimento constituem condições indispensáveis para desencadear qualquer ação que objetive aperfeiçoar o processo educativo.

Partiu-se, então, para o desenvolvimento de ações que explicitassem a linha metodológica assumida, dando ênfase à aprendizagem mediada e ao desenvolvimento da capacidade do pensar reflexivamente, dentre as quais:


a) a promoção de cursos aos professores interessados na aplicação dos instrumentos propostos no PEI e àqueles que, embora não estivessem interessados na aplicação dos instrumentos, buscavam capacitar-se na utilização dos princípios metodológicos da aprendizagem mediada, integrando-os com os pressupostos básicos do Programa de Educação para o Pensar (PEP);


b) o acompanhamento sistemático aos professores envolvidos no projeto, pela análise da prática em confronto com os pilares das teorias de Reuven Feuerstein e Matthew Lipman;


c) a implementação em sala de aula com turmas inteiras (3ª, 4ª e 5ª séries do ensino fundamental), aplicando-se os instrumentos do PEI e, simultaneamente, desenvolvendo o Programa de Educação para o Pensar;


d) a informação às famílias dos alunos, comprometendo-as com o projeto.


1. O Programa Filosofia com Crianças – Educação para o Pensar

O Programa Filosofia com Crianças - Educação para o Pensar foi desenvolvido pelo filósofo americano Matthew Lipman, que se inspirou em Dewey, Pierce, Mead e Vygotsky. Seus objetivos são:

a) cultivar e estimular a excelência no pensar, ajudando o aluno a pensar por si mesmo, num diálogo reflexivo que enriquece e traz maior compreensão dos conceitos e das vivências;


b) oportunizar um "lugar seguro", onde a criança com um autoconceito positivo possa exercer a curiosidade e as atitudes de admiração, de maravilhamento e de espanto diante do mundo;


c) incentivar e provocar os alunos a discutirem idéias filosóficas para que cultivem em si atitudes de busca e investigação por meio de situações que possam fazer com que a filosofia seja aplicada de maneira prática, crítica e criativa na sua vida cotidiana;


d) transformar o espaço da sala de aula numa comunidade de investigação onde o pensar crítico, rigoroso e criativo provoque uma postura dialógica, cooperativa e interdisciplinar, levando o aluno a refletir, questionar e envolver a comunidade escolar nesse processo.


Ao se analisarem as características do Programa de Educação para o Pensar, foi possível verificar que alguns dos grandes objetivos da educação sonhada pelo fundador do Instituto Marista, São Marcelino Champagnat, estavam contemplados na proposta de Lipman, principalmente o que se refere à preparação para uma cidadania responsável.


2. Programa de enriquecimento instrumental

A proposta de Feuerstein, Programa de Enriquecimento Instrumental e a Aprendizagem Mediada, visa a:


a) desenvolver as funções cognitivas subjacentes aos processos de pensamento e aumentar o nível de eficiência mental;


b) enriquecer o vocabulário e adquirir conceitos fundamentais a partir da análise dos processos de pensamento;


c) suscitar a motivação intrínseca inerente às atividades intelectuais pelo desenvolvimento das habilidades cognitivas e da instauração de um sistema interno e amplo de necessidades;


d) promover a auto-imagem positiva por meio de uma mudança estrutural, transformando o ser passivo e repetitivo em ser ativo e gerador de novas informações;


e) desenvolver a consciência dos recursos internos por meio do pensamento reflexivo (insight) e dos próprios questionamentos.


“Na obra de Reuven Feuerstein (FONSECA,1998) encontramos respostas para muitas indagações, algo que seguidamente era questionado em nossas escolas: Por que certas crianças não estão aprendendo, estão desinteressadas e, muitas vezes, não apresentam nenhum problema emocional ou neurológico? Elas não são capazes? Feuerstein nos diz que “todos são capazes de aprender, basta mediá-los adequadamente”.


Segundo o professor Marcos Méier (MEIER, 2001), observa-se, com freqüência, que as dificuldades de aprendizagem de um aluno em um componente curricular qualquer permanecem nos anos seguintes apesar da intervenção corretiva da escola por meio dos já tradicionais períodos de recuperação de estudos. Tais recuperações limitam-se a dar uma "segunda chance" aos alunos para que possam recuperar a nota a eles atribuída. No entanto, os problemas de aprendizagem permanecem.

O Programa Filosofia com Crianças - Educação para o Pensar está sendo desenvolvido no Brasil pelo Centro Brasileiro de Filosofia com Crianças, que utiliza o material de Matthew Lipman; o Centro de Filosofia - Educação para o Pensar de Santa Catarina, que produziu seu próprio material desde 1999; o Núcleo de Educação para o Pensar , de Passo Fundo – NUEP, atuando desde 1998, e o Centro Paranaense de Educação para o Pensar. As escolas maristas da Província Marista do Rio Grande do Sul contam com a assessoria do Núcleo de Educação para o Pensar , de Passo Fundo – NUEP.


No Brasil está sendo difundido e implementado o Programa de Enriquecimento Instrumental por diversas instituições, dentre elas, a rede estadual de educação da Bahia, algumas escolas lassalistas e empresas diversas.

O objetivo é elevar o potencial de aprendizagem, ajudando o indivíduo a sentir-se capaz de aprender, derrotando o estigma de incapacidade, e auxiliando-o a conhecer o seu funcionamento cognitivo para relacionar-se melhor consigo mesmo, com as outras pessoas, com o tempo e o espaço, partindo de sua própria organização mental.

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A partir das considerações descritas anteriormente, estamos envolvidos com essas duas propostas que se completam e dão o suporte necessário para uma mudança paradigmática em nossa prática pedagógica de sala de aula e do cotidiano escolar.

É um desafio muito grande que se está assumindo, cujos frutos não são colhidos de imediato. Saber para onde se quer ir e com que intenção é um dos pressupostos básicos para qualquer empreendimento, principalmente quando se trata da educação. Nesse terreno não se pode improvisar sem conhecimento de causa.

É preciso que se esteja aberto à mudança de rota quando as circunstâncias assim o exigirem, mas uma mudança responsável que seja a melhor resposta encontrada para as necessidades naquela época e naquele contexto sociocultural.

A matriz analítica apresentada a seguir evidencia os principais pontos dos dois programas, salientando-se, em especial, os pontos comuns.
 
TABELA 1 - Matriz analítica do Programa de Educação para o Pensar (PEP) e o Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI).
Veja a tabela


Conclusão

Com a unificação das Províncias Maristas no Brasil, hoje as escolas pertencentes à Província Marista do Rio Grande do Sul estão contemplando em seu currículo o Programa de Educação para o Pensar e estão incentivando e possibilitando a formação dos seus professores no campo da aprendizagem mediada e no desenvolvimento da educação para o pensar, o que, necessariamente, reverterá na transformação da sua prática. Os primeiros passos já foram dados, mas há muito que fazer. Tem-se consciência de que há necessidade de se aprofundar as teorias da mediação da aprendizagem e da educação para o pensar, implementando novos projetos, capacitando e atualizando os educadores, incluindo as famílias nesse processo.


O projeto “Qualificando o processo educativo” só terá êxito se todos os envolvidos, inclusive as instituições parceiras, como o Núcleo de Educação para o Pensar de Passo Fundo e o Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná, se mantiverem em constante atualização, avaliando continuamente o processo e adequando a teoria à prática.

Formar bons cristãos e virtuosos cidadãos, como sonhou São Marcelino Champagnat, inclui a “excelência no pensar”, que contribui para a conquista da autonomia intelectual e moral do aluno, tendo como condição para tal o discernimento calcado nos valores cristãos.


Referências

FÁVERO, Altair Alberto, CASAGRANDA, Edison Alencar (Org.) Diálogo e aprendizagem. 3 ed. Passo Fundo: Clio, 2004.
 
FONSECA, Vitor da. Aprender a aprender : a educabilidade cognitiva. Porto Alegre: Artmed, 1998.

LIPMAN, Matthew. A filosofia vai à escola . São Paulo: Summus, 1990.
 
MEIER, Marcos. Mediação: uma proposta metodológica para as escolas .Revista Educação Marista, São Paulo: CEMEP - Centro Marista de Estudos e Pesquisas. v. 1 n. 2 ago./dez 2001.


* Sandra Arruda é Pedagoga, foi supervisora pedagógica da Comissão de Educação da Província Marista do Rio Grande do Sul até 2007, formada no Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI) pelo Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná.